PARTIDA DE FUTEBOL

Sexta-feira. Sempre entro numa dinâmica diferente nas sextas. Mas nessa, em especial, estava meio sem saber o que fazer. Não queria ir aos lugares de sempre e, para falar a verdade, acho que nem de casa queria sair. Estava num estado que denominei de “smurgh” (= tédio + cansaço + não saber exatamente o que se está sentindo). Trabalhar de sexta para mim já é um parto e em estado de “smurgh”, não há outra saída a não ser enrolar, fingir que estou trabalhando.
Liguei para um, liguei para outro e nenhum dos meus amigos ia fazer algo à noite. Estava preste a sair do estado de “smurgh” e ingressar no mais absoluto tédio, quando o telefone tocou. Era a Claudia, uma amiga. Uma das primeiras perguntas dela para mim foi o que eu ia fazer a noite. Respondi que não tinha planos e, antes que me empolgasse por completo diante de ter finalmente encontrado alguém que ia fazer algo numa sexta à noite, ela me faz o convite mais absurdo que eu podia esperar naquele momento: “vamos ver o jogo de futebol de uma amiga minha?'. Lembro da cara que fiz porque estava com o telefone sem fio exatamente na frente do espelho. Futebol??? Pensei: eu não gosto de futebol. E futebol numa sexta e ainda por cima de mulheres??? Logo lembrei às vezes que assisti esses jogos de futebol entre amigos pelas noites. Ficava sentada, bebendo cerveja vendo aquele bando de perna de pau correndo atrás da bola. E, é claro, depois do jogo todos os atletas caiam na cerveja e nos salgados extremamente gordurosos. Mas sempre foi muito divertido.
Por instantes tentei imaginar a versão feminina dessa situação e não consegui conter o riso. Disse a ela que não gostava de futebol e recebi de resposta uma tremenda bronca: “larga a mão de ser chata; vamos fazer algo diferente!”. É, realmente, assistir o jogo de futebol entre mulheres numa sexta a noite era algo bem diferente. Disse que daria a resposta depois. Não consegui me motivar para assistir um jogo de futebol. No final da tarde, quando até já tinha esquecido desse convite, o telefone tocou e novamente era ela. A Claudia insistiu tanto que acabei concordando em ir ver o tal jogo. Desacreditei que em plena sexta-feira à noite eu ia assistir um jogo de futebol de mulheres. Nem pensei que seria interessante porque logo visualizei o tipo de mulher que não me atrai. Mas mesmo assim fui me encontrar com a Claudia para irmos para o jogo. Chegamos lá e fui apresentada para algumas das jogadoras que lá estavam. Estávamos quase uma hora adiantadas e logo imaginei o quanto seria chato ficar ali. Não conhecia ninguém, fico um tanto tímida e as meninas estavam super empolgadas com o jogo.
A grande vantagem desses lugares que locam quadras é que sempre tem um bar, e o melhor, que vende cerveja. No bar encontrei um conhecido; ficamos conversando e, quando voltei para onde estava a Claudia, as meninas já estavam no campo se aquecendo. Ao saber que eu estava conversando com um conhecido, a Claudia riu e disse que só eu para diante de tantas mulheres preferir conversar com um conhecido. Chamei-a de boba dizendo que estava ali apenas para passar o tempo e não para paquerar, e que num jogo de futebol de mulheres seria difícil me interessar por alguém.
(Às vezes penso o quanto somos capazes de falar mais do que deveríamos. Como dizem: “o peixe morre pela boca”).
Nessa brincadeira de paquerar ou não, comecei a observar as atletas de final de semana.
Enquanto algumas se aqueciam, outras ficavam batendo papo, às vezes puxando a perna para trás, essas coisas de aquecimento, mas na verdade estavam é tagarelando mesmo, exatamente como os homens faziam naqueles jogos que eu ia assistir. Ri um pouco da situação, mas nem comentei com a Claudia porque sabia que ela ia me torrar a paciência. Mas seja como for, elas estavam ali mais para relaxar; um jogo de lazer eu diria.
Meus pensamentos foram interrompidos por uma das garotas que veio até a Claudia pedindo que essa segurasse o seu celular. Não sei dizer exatamente o que, mas algo nela me chamou a atenção e, inevitavelmente, passei a observar cada gesto, cada passo, cada olhar. O jogo de futebol tornou-se um jogo de observação; no campo, apenas ela era o que me interessava. Às vezes ela olhava na minha direção, mas não ficou claro se olhava exatamente para mim e isso começou a me incomodar porque me senti dando, como dizem, “a maior bandeira”. Era tão evidente que a Claudia brincou dizendo para eu parar de olhar para a Juliana. Desconversei dizendo que ela estava delirando, que na verdade eu estava prestando atenção no jogo.
O jogo terminou e as garotas vieram todas em volta de nossa mesa. Claro que todas começaram a pedir cerveja e, a Juliana, ao invés de pedir, se apossou do meu copo, tomando a minha cerveja. Quando acabou com a cerveja do copo, olhou pra mim e perguntou se podia tomar um gole. Não sei dizer qual a cara que fiz, só sei que ela riu muito da minha cara.
Acabei perdendo o fio da meada dos meus pensamentos diante de tanta gente falando ao mesmo tempo. Só sei que quando me dei conta todo mundo tinha praticamente sumido. Perguntei para a Claudia do povo e ela disse que estavam no vestiário se trocando porque iríamos para um bar. Umas garotas apareceram, chamaram a Claudia e essa pediu para eu ir levar o celular da Juliana para ela no vestiário. Na confusão toda acabei pegando o celular sem ao menos saber onde era o tal do vestiário.
Fui caminhando até ver uma luz acesa e imaginei que lá seria o vestiário. Atrás de mim as luzes iam se apagando; o breu quase tomando conta do local. Mas a lua estava cheia, tão loucamente cheia que a escuridão não conseguia se fazer presente por completo.
Cheguei até onde estava acesso, bati na porta chamando o nome dela. Escutei um oi baixo, meio que com dor. Entrei e ela estava puxando os dedos do pé com uma expressão facial de muita dor. Perguntei o que estava acontecendo e ela me respondeu que estava com câimbra. Tirei sua chuteira, seu meião e fiz massagem nos seus pés. Quando olhei para ela, ela estava olhando de um jeito diferente para mim, que me fez corar, ficar completamente sem graça. Perguntei se tinha passado já dizendo que estava ali porque a Claudia tinha pedido para entregar o celular dela. Ela riu, disse para eu ficar calma e que ia se trocar rapidinho para irmos nos encontrar com as meninas. Realmente não consegui olhar ela se trocando; acendi um cigarro e fui para a porta esperá-la. Da porta fiquei olhando a lua cheia; adoro a lua e quando ela está cheia sinto-me especialmente sensível. Senti suas mãos nas minhas costas seguida de sua fala: vamos!
Descemos a escada e caminhamos até o portão. Chegando no portão: fechado. Olhamos em volta...nada, ninguém. Desacreditando na situação, andamos pelo local e nada. Estávamos literalmente trancadas ali. Mais uma vez eu devo ter feito uma cara tão absurdamente horrível que ela desandou a rir. Acabei rindo junto da situação toda. Olhei para ela e perguntei: e agora? Ela disse para eu ficar calma, que dormiríamos no vestiário porque parecia que ia esfriar de madrugada.
Abaixei a cabeça desacreditando naquilo tudo e, quando a ergui, tinha a perdido de vista. Foi quando a ouvi me chamar. A doida tinha aberto o bar e estava pegando cerveja para nós. Nessa altura eu já estava rindo de tudo.
Fomos até uma das quadras, sentando-nos bem no centro. Começamos a conversar e quando falei que não gostava de futebol ela sumiu novamente voltando com uma bola.
Entre uma cerveja e outra ela tentou me convencer a gostar de futebol e mais ainda, tentou me ensinar. Num determinado momento cansei da brincadeira e agarrei a bola. Ela veio correndo e, ao mesmo tempo em que perguntou se eu gostava de futebol americano, pulou em cima de mim, indo as duas parar no chão. Ao invés de sentir a dor da queda, senti o peso do seu corpo sobre o meu, de uma forma tão deliciosa que moldei meu corpo para que o dela se encaixasse no meu até que ficamos cara a cara praticamente com nossos lábios se tocando. Fiquei sem saber se a respiração que sentia era a minha ou a dela. A única coisa que tinha certeza era que tudo aquilo tinha me excitado muito e, com ela sobre mim, já não sabia mais o que fazer.
Senti seus lábios tocarem os meus de forma que nossas bocas se abriram dando vazão para o encontro de nossas línguas. Eu já não tinha domínio de nada, apenas via a lua e seus olhos brilhantes olhando para mim. Ouvimos um barulho. Silêncio e um gato assustando cruzou o campo. Ela abriu um sorriso tão lindo que se tornou inevitável beijá-la enquanto fomos nos despindo
Comecei a brincar no seu corpo como se fosse um campo de futebol, transformando meus dedos em jogadores. Nessa brincadeira toda ela resolveu me desafiar dizendo que eu só tinha 10 jogadores. Sorrindo de uma forma toda especial para ela, ao mesmo tempo em que fui lhe abrindo as pernas e me ajeitando, disse que ela esqueceu de contar com o artilheiro da seleção, mergulhando minha língua num verdadeiro mar de desejo. Quando senti que seu gozo era inevitável, parei, levantei-me e disse que queria ir embora me dirigindo para a saída do campo. Foi quando senti seu corpo jogando o meu contra a grade do campo, e ela dizendo que eu não ia embora. Até quis brincar, afastá-la de mim, mas suas mãos pelo meu corpo trouxeram-me uma enorme seriedade pela vontade que estava dela. Mas ela parecia querer continuar brincando e quando eu estava quase que perdendo completamente os sentidos, parou e disse que já que eu não gostava de futebol ela não iria marcar gol.
Ficamos nesse jogo, no campo, até umas 3 h da manhã, quando o frio se fez sentir e resolvemos ir para o vestiário. Pegamos um monte de coisas na tentativa de fazer uma cama quente. Nos vestimos, deitamos num leito que mais parecia um amontoado de trapos.
Deitadas uma de frente para a outra, a sensação de que faltava algo tomou conta do vestiário. Nossos lábios se encontraram numa voracidade inigualável enquanto nossas mãos buscavam alcançar nosso desejo que se fazia latente demais para ser esquecido, mas, o celular tocou e, se desculpando, disse que tinha que atender. Era a Claudia que estava do lado de fora com o vigia do local. Nos levantamos, sem uma olhar para a outra, e fomos para a porta de entrada que já se encontrava aberta. Fiz uma brincadeira boba para quebrar o clima. Eu entrei no carro da Claudia e a Juliana no dela, cada uma seguindo o seu caminho. No caminho passei a repensar meus conceitos de futebol, ao menos sobre as jogadoras de futebol nos fim de semana.

Drica Gentile

 

 


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