INFORMAÇÃO

 

O que fazer num domingo de Páscoa? De repente o tédio veio fundo. Saí de onde estava, parei na esquina e pensei: para a esquerda ou para a direita? Esquerda significava ir me encontrar com amigos em um barzinho; ir para direita era ir para casa. Olhei para um lado, para o outro. Um leve suspiro. Decididamente vou para casa. Resolvi ir a pé. Adoro andar a pé; os pensamentos fluem, as idéias se tornam claras. Depois de cinco quarteirões tirei o casaco; acendi um cigarro e fui caminhando rindo um pouco com os pensamentos que me vinham na mente. Cheguei a pensar que deveria estar com um notebook para registrar as doideiras que me vinham na cabeça. Mas seria realmente estranho alguém andando com um notebook pendurado. Acabei rindo sozinha ao imaginar eu andando digitando num notebook. Estava já quase no meio do caminho quando vi um carro passando e a motorista olhando para mim. Abri um sorriso meio safado e continuei andando. Quando me dei por mim o carro tinha voltado, parou, o vidro foi abaixado e a motorista me abordou para pedir uma informação. Logo pensei o quanto viajei achando que ela tinha olhado para mim. Cheguei perto do carro, me curvei levemente. Ela tinha os cabelos lisos, um pouco abaixo do ombro. Retirou os óculos escuros. Tinha belos olhos, ressaltados por sobrancelhas fortes. Não era lindíssima mas tinha uma beleza meio clássica, misteriosa. Pediu desculpas por ter me parado e perguntou se eu sabia onde ficava o Boteco. Disse que tinham vários botecos na Ricardo Jafet. Ela corrigiu: Não, você sabe onde fica o Boteco Ouzar? Parei, pensamentos rápidos. Por quê essa garota tinha me parado para perguntar onde ficava justamente o Boteco Ouzar, principalmente porque estava razoavelmente longe do mesmo? Meio sem saber o que fazer ou o que pensar. Repeti a pergunta: onde fica o Boteco Ouzar? Sim, ela respondeu. Disse que ficava no Ipiranga, que era perto mas que explicaria para ela. Perguntei se ela não era de São Paulo. Disse que sim. Achei mais estranha ainda a história, mas nunca se sabe, tem muita gente perdida em localização. Fui explicando o caminho sem conseguir olhar direto para ela. Quando olhei para ela e perguntei se tinha entendido, ela sorriu de um jeito, que qualquer pessoa menos atordoada do que eu no momento, teria identificado como um clássico sorriso safado. Ela disse que não tinha entendido, que tinha enorme dificuldade em se localizar. Para minha surpresa perguntou se eu não queria ir com ela, assim ela aprenderia o caminho. Desacreditei no que estava ouvindo. Claro que o lado esquerdo que podia ter ido, o barzinho era justamente o Ouzar, mas, ir para lá com uma estranha? Pior, entrar no carro assim desse jeito? De alguma forma parece que ela leu mais ou menos meus pensamentos. Ela disse que não iria me atacar, nem me seqüestrar. Apenas queria conhecer o Farol e me achou simpática e que seria interessante bater um papo, tomar umas cervejas. Sabe quando o cérebro parece que pára? Pois bem, fiquei por frações de segundo sem saber o que falar. Aí ela disse: Olha, meu nome é Fabiana, estou afim de espairecer e pensei em conhecer esse tal barzinho. Passei por você e achei que você conhecia, por isso dei a volta para te perguntar. Adoraria se você aceitasse meu convite. Prometo que não farei nada e ainda te trago de volta. A propósito, qual o seu nome? Curvei-me mais, e respondi que era Simone. Olhei para ela e falei que eu devia estar meio biruta, mas que ia aceitar o convite. Entrei no carro e fomos conversando. Quando me dei conta, percebi que ela sabia o caminho. Ri comigo mesma desacreditando na história toda. Chegamos no bar, cumprimentei as pessoas que conheço, apresentei-a e ficamos sentadas perto da árvore conversando. Ela me contou que tem 27 anos, é formada em filosofia, tem uma loja de objetos de decoração. Fomos conversando, o tempo passando e, quando o bar começou a lotar, ficou quase que impossível conversar. Foi quando ela sugeriu que fossemos para outro lugar. Pagamos a conta, entramos no carro, ela deu partida, desligou: Você toparia tomar mais cerveja em um posto de gasolina? Concordei com a idéia. Fomos até um posto, ela parou o carro. Saímos, baixou a parte de trás do carro (ela tinha uma Dakota), pediu para esperar e entrou na loja de conveniência. Fiquei ali sentada olhando o movimento da avenida. Nessa altura nem mais questionava se eu era biruta ou não. Ela se aproximou, me deu uma long neck, com o cuidado de abri-la antes. Fez um brinde ao nosso dia diferente. Rimos e continuamos a falar sobre filosofia, religião. Papo cabeça, como diriam. Começou a contar do trabalho voluntário com crianças carentes, onde ensina para elas filosofia e, conforme ia falando, comecei a observá-la; seu jeito de falar, de se expressar; seus olhos, a forma como seus lábios se mexiam. Essa minha viajem foi interrompida por ela: posso tomar um gole de sua cerveja? Não entendi porque ela acabará de abrir uma nova long neck, mas mesmo assim dei-lhe minha garrafa. Fiquei observando. Ela a levou até os lábios, encostando-os suavemente. Tomou um leve gole e me devolveu a pequena garrafa. Olhou para mim e disse, apertando os lábios, que não tinha adiantado, que não tinha matado a vontade da sede de me beijar e que achou que, ao encostar seus lábios no gargalo da garrafa que eu estava bebendo, essa vontade passaria um pouco. Aproximei meu rosto do dela, tocando suavemente seus lábios. Sorrimos. Aproximei-me mais até ser impossível deixar de nos beijarmos. Ali estava eu, num domingo insuspeitado, sentada na caçamba de uma Montana, num posto de gasolina, beijando uma mulher que até há pouco era-me completamente estranha. Alguém passa rápido de carro e grita algo. Acabamos rindo, porque por instantes esquecemos onde estávamos e que as pessoas são preconceituosas demais para respeitarem. Ela se afastou, se encosta no carro, me fitou profundamente. Perguntei se deu para matar a sede. Abriu um enorme sorriso e me disse que nunca fez, e jamais pensou em fazer o que fez hoje; dar a volta, parar, me convidar, estar ali...Perguntou se eu iria com ela. Inevitavelmente pergunto para onde e ela repete a pergunta. Sem saber ao certo o porque, digo que sim. Ela fechou a caçamba, entramos no carro. Fomos quase que em silêncio. Algumas troca de olhares. Ela me diz que uma das coisas que mais gosta de fazer é de ficar de madrugada olhando para o céu. Pára diante de um portão; pega o controle no porta-luvas, abre o portão. Entrou com o carro numa garagem que mais parece um jardim. Vejo a lua refletida na água da piscina. Estacionou. Saímos do carro e pediu para que eu a esperasse por um momento. Entrou dentro da casa. Em pouco tempo volta carregando um acolchoado, cobertor, almofadas. Abriu a caçamba do carro. Colocou o acolchoado, almofadas e cobertor. Pediu mais um minuto. Entrou novamente dentro da casa. Voltou com uma sacola e um cinzeiro. Subiu na caçamba, fez um gesto com a mão me convidando para subir. Deitamos por debaixo das cobertas. Fazia um vento gelado. Ela abriu uma cerveja e me deu. Abriu outra para ela. Ali, deitadas, começou a falar o quanto gosta de dormir ao relento. Parou de falar; virou o corpo para mim e perguntou se podia tocar mais uma vez meus lábios. Virei-me para ela; aproximei e nos beijamos. Fomos tirando aos poucos nossas roupas até ficarmos completamente nuas, na caçamba de um carro, no quintal de uma casa que me era estranha, tão estranha quanto era há pouco essa mulher que toca meu corpo agora com tanta intimidade que nem eu mesmo suspeitava que poderia ter.

Drica Gentile

 


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