SONHANDO OU JOGANDO?

 

Uma pausa para completar teu copo do vinho branco que vai me embriagando pouco a pouco; acendo teu cigarro com o fogo que vai tomando conta de mim e meu cigarro com a chama de teus olhos que se revezam com teus lábios que se molham diante de mim. Perco mais uma partida; mais uma peça que me cobre se despede de mim. Retiro-a como um convite que sei que não será aceito. Enquanto tiro, teu sorriso me desnuda e sorrio timidamente, como quem não vê o momento do jogo acabar ou, quem sabe, não terminar. Um gole de vinho, fumaça do cigarro escapando de minha boca num convite que vira desafio.. ao te olhar, minhas pálpebras se fecham com a fumaça do cigarro que invade meus olhos, criando uma imagem surreal de ti. A partida termina. Embaralho as cartas como quem quer perder e, ao mesmo tempo, ganhar o jogo. As peças de tua roupa vão desvelando, num ritmo que me entontece, pouco a pouco teu corpo. Roupas ao chão, o beijo se faz o próximo a se revelar. Nossos lábios se tocam suavemente... engulo a seco, numa respiração que se desfaz pelo que sinto ao toque suave de nossos lábios. Embaralhas a carta quase que me deixando ver uma a uma as que se sucedem. O toque suave dos lábios secos transmuta no gosto de tua boca na minha...num toque inevitável de línguas. Novas cartas tão já conhecidas. Você ganhou e quase que imploro para que estejas desejando o mesmo que eu, quando sinto teus lábios em meu pescoço e tuas mãos tateando meu corpo. Cartas ao chão, debruço-me sobre teu corpo na mesa que acobertava esse jogo maluco que me leva a ti. Quando começo a te tocar você segura minhas mãos... paro... te fito por instantes...recua... escorrego pelo teu desejo. Um novo jogo se faz enquanto seu corpo se contorce ao meu toque. E no toque de ti em mim, me perco nos meus sentidos. Você sorri e, como quem em protesto, penetra em mim como se fosse minha dona. E o jogo se faz xeque, quando no meu desejo em ti penetro, na tentativa vã de me mostrar ser sua dona. Tua mão parece se transformar na minha, enquanto a minha se transforma na tua, diante do toque certeiro que quase nos desfalece. Gozo? Não, estamos num jogo. Já não me importo mais em ganhar ou perder. Enquanto embaralhas as cartas vou construindo teu cheiro, teu gosto, meu sentir da minha pele sobre a tua, num jogo de paciência interminável. Perdi, retiro a última peça. Vejo a cair, como que em câmera lenta sobre a mesa. E já não sei mais se jogava ou se sonhava contigo.

 

DRICA GENTILE



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