TANGO

 

Estava caminhando numa rua quando uma música me chamou a atenção. Era um tango. Adoro tango. Pensei o quanto sempre falei que um dia ainda ia aprender a dançar. Enquanto andava e vagava nos meus pensamentos, a música se tornava mais próxima, até que consegui identificar de que casa vinha. Uma casa antiga, provavelmente construída por italianos. Lembrava muito a fachada da casa onde cresci. Pensei em quem será que morava lá; em quem estava ouvindo aquela música. Imaginei ser um senhor. A janela estava aberta e não resisti. Atravessei a rua para tentar ver que estava ouvindo essa música que se repetia insistentemente como aqueles aparelhos antigos de ouvir disco de vinil, que voltavam na música sempre que essa acabava. Ao chegar ao outro lado da rua, olhando para ver se não vinha ninguém, afinal a situação era meio embaraçosa, direcionei meu olhar para aquela janela aberta. Meu corpo pareceu ficar dormente, meus olhos não piscavam, minha respiração ficou suspensa. Como numa cena de cinema, o que vi foi uma mulher de uns vinte e poucos anos, vestida com um pijama de flanela, abraçando uma almofada, fazendo dessa sua parceira de dança. Dançava, um tanto desastrada para um tango, mas de um jeito que ia me enfeitiçando conforme a música tocava. Quando me dei conta, era toda sorriso, completamente encantada pelo que estava vendo. De repente ela olhou na minha direção; ameaçou parar, mas a música recomeçou. Veio dançando até perto da janela fazendo sinal para eu me aproximar. Enfeitiçada fui indo ao seu encontro. Ao chegar a beira da janela, ela curvou-se me oferecendo sua mão. Ri lembrando das vezes que, numa janela parecida, para terror da minha mãe, entrava no meu quarto exatamente da mesma forma. Apoiei o pé no adorno da parede e, puxada pela sua mão, entrei em seu quarto. Indescritível o sorriso esboçado naquele rosto. Ela largou a almofada, colocou um de seus braços em volta do meu pescoço, juntou seu corpo ao meu, como a me convidar para dançar com ela. Tão ou mais desajeitada do que ela, fui acompanhando-a nessa dança que me fazia ficar ofegante. Ela ia me levando para longe da janela, ao mesmo tempo que nossos corpos ficavam mais colados. Ao virar sua cabeça para trás, meus lábios ganharam seu pescoço, deixando-me embriagada com o seu perfume. Por momentos ela se afastou. Achei que eu tinha ido longe demais e quando ia pedir desculpas, com um sorriso maroto, foi desabotoando seu pijama conforme se reaproximava de mim. Completamente envolvidas com a música que não parava de tocar, fomos nos despindo, até ganharmos o chão, que acolheu nossos corpos nus, como um lençol que se abre sobre a cama diante do desejo que se faz. A noite caia ao som daquele tango enquanto nossas mãos desvendavam cada detalhe dos nossos corpos, até que o som mudo de nosso gozo se misturou ao do cuco que anunciava a madrugada que insistia entrar pela janela. Olhei nos seus olhos adormecendo enquanto a música dizia:...abraça-me esta noite...entrega-te a meus braços...

 

DRICA GENTILE

 

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