ÚLTIMO
Olho no relógio – 23:45. Preciso ir. Peço a conta; caminho atenta e rapidamente rumo a estação do Metrô. Entro na estação, passo a catraca. Fico aliviada por ter conseguido chegar a tempo. Desço a escada rolante. Na plataforma, lanço o olhar feito bicho que faz reconhecimento de onde está. O trem chega. Entro no último vagão. Sento-me e, quando a porta está prestes a fechar, uma garota pula literalmente para dentro do vagão. Menina bonita, não mais do 19 anos, mais ou menos 1,70 m, magra, cabelo curto, castanho claro, olhos esverdeados. Olha em minha direção, sentando-se alguns bancos na frente, voltada para mim. Acabo rindo ao pensar nessa coisa absurda de ter que sair correndo para pegar o último Metrô, o último ônibus. Mas faz parte para aqueles que adoram a noite de São Paulo e não têm carro. O trem começa a andar e, inevitavelmente, olho para ela. Estamos apenas eu e ela nesse imenso vagão. Tento lembrar se ela estava no mesmo bar...mas se estivesse eu teria reparado porque tem algo que me chama a atenção...os olhos, não a cor, mas os olhos. Adoro olhos. Tenho a impressão que ela me olha pelo reflexo da janela. O trem pára em outra estação. Ninguém entra. Não consigo evitar de olhar para ela e tenho a sensação que também olha para mim. Penso que eu deveria ser mais espontânea, puxar papo, sei lá. Sinto-me como se estivesse num elevador, leio um milhão de vezes os anúncios, o mapa das estações, intercalando com o olhar rápido para ela. Distraio-me por instantes, pensando longe e, quando vejo pela janela o seu reflexo. Um esboço de sorriso, sua mão descendo até seu ventre. Olha em minha direção deixando sem alternativa. Olho para ela. Desce mais a sua mão, colocando-a por dentro de sua calça. Sinto-me estranha, agitada, inquieta. A voz anuncia a próxima estação. Olho novamente e ela está simplesmente olhando para o nada do túnel do Metrô. O trem pára na estação. Uma mulher entra, senta-se atrás dela. As portas se fecham; o trem começa a andar. Ela se ajeita no banco, abre sutilmente as pernas, desce a mão novamente até sua calça, deslizando-a suavemente. Olha para mim. A expressão do seu rosto me tira os sentidos por instantes. Quando me dou conta, descruzei as pernas, deixando-as um pouco abertas. A voz anuncia nova estação. A porta se abre, entra um casal hetero e mais dois rapazes. Olho para ela e a vejo novamente voltada para o túnel do Metrô, permanecendo assim até a próxima estação. Levanto-me, saio do vagão, caminho até a escada rolante e sinto sua presença atrás de mim. penso em olhar, mas acho que é delírio e não me viro. Continuo assim até o ponto do ônibus, quando me viro, a vejo vindo também para o ponto. Fico sem saber como agir; sinto o rosto ficar vermelho. Ela passa por mim. Não consigo me virar para ver se ela se foi ou se parou no ponto. Acendo meu último cigarro. Ao olhar para frente vejo o último ônibus se aproximando. Olho para o cigarro, fico em dúvida (delírio de fumante). Faço sinal, jogo o cigarro no chão e entro no ônibus. Atrás de mim umas cinco pessoas sobem no mesmo ônibus. Sento-me uma banco antes da porta de saída e aí a vejo passando a catraca. Passa por mim; não me olha. Nunca o caminho da estação até minha casa foi tão longo. O ônibus se aproxima do ponto que tenho que descer. Levanto-me e a vejo. Dou sinal para o motorista parar. Viro-me para a porta e vejo com o canto dos olhos ela se levantar. Desço, ela desce atrás. Vou caminhando até a porta de casa sem coragem de olhar para trás. Quando chego no portão, subo a pequena escada, abro a porta, viro-me e a vejo parada olhando para mim. Ela coloca a mão no bolso, tira um maço de cigarro e pergunta se quero um. Sorrio; desço até ela; pego um cigarro; ela acende para mim. Olho nos seus olhos...como são lindos. Ela diz: tomaria uma última cerveja mas a essa hora...Convido-a para tomar uma cerveja em minha casa. Entramos, ela senta-se no sofá; vou até a cozinha; volto com duas latas de cerveja. Estranhamente sento-me ao seu lado apesar do impulso de sentar-me no outro sofá. Entrego-lhe uma lata de cerveja, dizendo-lhe que estava com a impressão de que ela estava me seguindo. Ao abrir a lata, a cerveja, congelada, começa a cair, levantamo-nos indo rapidamente para a cozinha. Ela coloca a cerveja na pia, mão encharcada de cerveja. Abro a torneira para lavar as suas mãos. Ela molha seu rosto e quando se ergue da pia não consigo evitar o desejo de beijá-la. Água escorrendo...perco completamente a razão. As três horas da manhã acordo. Do meu lado a vejo nua. Passo a mão suavemente no seu rosto. Ela abre os olhos, sorri. Beijo seus lábios. Ela corresponde apertando meu corpo contra o seu. Adormecemos assim, simplesmente nuas no último beijo.
DRICA GENTILE
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