VAMPIRA

 

Quando entro no cio, às vezes sinto-me estranha, como se o sangue que percorre minhas artérias pulsasse intensamente pelo meu corpo. Ando pelas ruas, como que a cegas com a claridade que insiste em penetrar no meu ser.
Olho para os lados; pessoas passam, repassam; corpos anônimos feito zumbis pela metrópole. Sinto o suor escorrendo pelo meu rosto; esfrego os olhos, o rosto, como que tentando recuperar uma lucidez que não me cabe no momento.
Meu corpo frio; minha alma fervendo; minha boca sedenta dando-me a vista com que a ver clara as mulheres que passam por mim, num incansável desfile de cheiros, gostos...Quase que desfaleço quando miro aquela garota. Meus olhos a seguem, minha cabeça vira em sua direção, meu corpo flutua nos seus passos. Ao me dar conta, estou seguindo-a pela cidade. Carros passam alucinadamente através de mim. A noite expulsa a claridade como se essa estivesse impedindo o ciclo inevitável da vida. Volto a enxergar e diante de mim caminha uma mulher cujos braços expostos meus olhos percorrem até alcançar seu pescoço, desvelado pelo vento que faz os fios de cabelo dançarem no seu ritmo.
O farol avermelha-se; chego ao seu encontro. Ao seu lado, pele na pele, uma alquimia se revela no coração que se acelera. O Sol sucedido pela floresta...ela se vai enquanto tento ir além do que sinto. Fecho os olhos, respiro profundamente e novamente estou atrás dela.
Sinto o pulsar de seu sangue pelo seu corpo através do cheiro de sua boca ofegante que rouba cada vez mais rápido o ar que a envolve. Minha respiração acompanha seu ritmo como simbiótica de uma alquimia além de mim mesma.
No delírio que sou levada pelos meus olhos que percorrem seu corpo, perco-a de vista, mas sinto-a tão próxima quanto a mim mesma e no vácuo que se faz entre nós, vou ao seu encontro, transcendendo qualquer obstáculo que se faz diante do inevitável.
No elevador, sem imagem, diante dela, a vejo desfalecer nos meus braços. A mercê d meus desejos, sua cabeça paira pra trás, expondo-me ao banquete tão, outrora, desejado. Mas a alquimia se faz presente e carrego-a nos meus braços até seu leito ainda desarrumado, quiçá pela pressa que lhe arrancou do calor de suas cobertas.
Deito-a suavemente ainda sentindo o desejo em sua boca.
Debruço-me sobre seu corpo despindo-a de suas vestes que encobrem sua essência.
Seu cheiro me entontece enquanto a barra do dia rompe a escuridão da noite.
Percorro seu corpo seguindo a luz que vai, pouco a pouco, lhe revelando, até sentir o orvalho que cobre meus dedos.
Feito bicho sem dono, retomo seu pescoço, sentindo seus dentes, suavemente cravando meu pescoço, enquanto sinto seu calor escorrer pela minha boca insaciável por ti.

Drica Gentile

 

 


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