VOCÊ É MULHER?

 

 

 

Em uma conversa familiar, ao falar de questões sobre mulher, fui surpreendida com a seguinte pergunta de uma tia: E você é mulher? Fitei aquela senhora de 80 anos, pessoa que tenho profundo carinho e percebi que aquilo envolvia muito mais do que uma simples conversa em família. Olhei-a nos olhos e perguntei o que ela achava que eu era. Para o desespero da neta dela, que tentou remediar a situação, continuei a olhá-la fixamente quando ela repetiu a pergunta, até que por fim se deu de ombros diante do meu desafio ao que estava entalado em sua garganta. Simplesmente calou-se e eu sorri, com um leve balançar da cabeça em sentido horizontal. Mais tarde conversei brevemente com a neta dela, minha prima, sobre o ocorrido. Disse que por segundos achei que ia esquecer que ela é minha tia; que respeito é tudo etc e tal. Minha prima disse que percebeu que ela ia falar besteira por isso tentou intervir. Enfim, a coisa acabou por ali, pelo menos no momento. Mas a ocorrência me fez pensar, refletir sobre esse tipo de postura, de concepção.

Como já tenho discutido várias vezes, dentro da diversidade, somos diversas. Há todos os tipos de mulheres homossexuais, das masculinizadas as extremamente femininas. Mas de alguma forma, culturalmente as pessoas associam as mulheres homossexuais unicamente a imagem das masculinizadas. Parece que o fato de ser homossexual tira o seu “direito”, o seu “ser” mulher; é como se a mulher só existisse a partir da sua relação com o homem.

Em uma visão minimalista, ser homossexual é ter atração por uma pessoa do mesmo sexo. Sem querer entrar na questão da diversidade dentro da diversidade, mas...nessa concepção, mulher homossexual gosta de mulher (sem ser masculinizada, ou seja, feminina). Há um filme que traduz brilhantemente o que quero dizer: Querelle, de Rainer Werner Fassbinder. O filme mostra a adoração, o fascínio pela pessoa do mesmo sexo (no caso homens), pelo corpo, pelo jeito de ser característico do sexo.

Seja como for, a homossexualidade não tira o ser mulher ou o ser homem. Claro que há homens afeminados, assim como mulheres masculinizadas, mas isso são outras questões. O fato é que uma mulher não se faz mulher pelo homem; ela é mulher por si mesma.


Drica Gentile

 


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