

Naquela fase em que se está no dilema de sair ou não do armário, é comum a gente ouvir o discurso de que não se quer expor-se, que se tem receio de como as pessoas vão reagir e, o mais comum, não querer que os pais saibam. O mais interessante é que, invariavelmente, pelo menos a mãe sabe; pode não dizer, mas é impressionante como ela sente o que está acontecendo. Como dizem: “mãe é mãe!”
Já ouvi inúmeros discursos sobre essa questão de sair ou não do armário, principalmente justificativas para não se expor, que vão desde família até a parte profissional. Mas confesso que o discurso mais absurdo que já ouvi é aquele que desvela a homofobia do próprio homossexual. Pode parecer estranho, mas existem pessoas com orientação sexual homo, que são completamente homofóbicas. Elas acham um horror coisas como lutar pela união civil, contar para os pais, amigos etc.
Ora, tenho tomado o termo homoafetividade, da Desembargadora Maria Berenice, na intenção de retirar não apenas a conotação exclusivamente sexual da relação afetiva entre duas pessoas do mesmo sexo, assim como para enfatizar, celebrar, pode-se assim dizer, o encontro entre duas pessoas que se amam. Duas pessoas que têm, por hipocrisia da sociedade, que lutar pelos seus direitos de cidadãs.
Acho fantástico quando encontro um casal homoafetivo que tem uma relação aberta, sadia com sua família, com seus amigos, até mesmo no seu local de trabalho. Isso é sair verdadeiramente do armário e ter conquistado o respeito do seu círculo social próximo.
Mas chegar a esse ponto leva tempo, depende principalmente de nossa capacidade de romper com os nossos preconceitos, e isso não é fácil. Depende muito de pessoa para pessoa. Mas quando se consegue escancarar o armário, se olhar no espelho e se ver, se aceitar, aí se pára de pensar no que os outros vão dizer. E isso geralmente se dá quando algo acontece na nossa vida que nos faz olhar para trás e perceber o quanto temos sido idiotas em nos esconder de nós mesmos. De nós mesmos? Sim, exatamente, porque ficamos brincando de esconde-esconde com os outros, sendo o que não somos, escondendo, por exemplo, a pessoa que amamos, apresentando-a como minha amiga. Aí que entra a questão da homoafetividade. Porque se é só para ir para a cama com alguém do mesmo sexo, isso é fácil de esconder, de ocultar. A questão é quando a relação é homoafetiva, ou seja, a cama é um complemento, há um envolvimento emocional, afetivo com a pessoa. Quantas de nós já nos esquivamos da pessoa que amamos em situações sociais, como um supermercado, encontro com amigos heteros, família, rua etc.? Há uma enorme dificuldade a ser superada em dizer: Essa é minha namorada! Essa é minha mulher! E isso não é uma crítica não. Já passei por isso e hoje olho para trás e penso: que coisas tolas que fiz.
Então, acho que antes demais nada, é preciso que a gente se olhe, verifique, observe as nossas atitudes diante a homoafetividade, para buscar meios de superar nossos próprios obstáculos à aceitação dela.
A nossa orientação sexual importa a nós mesmas e é a partir dessa conscientização que podemos pegar na mão da mulher que amamos e simplesmente sair não para fora do armário, mas para a vida.
Drica Gentile
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