

Falar em corpo e prazer remete automaticamente às questões que envolvem a sexualidade. E quando o assunto é a sexualidade da mulher, ainda os caminhos que norteiam o tema estão repletos de tabus, principalmente no que diz respeito a sexualidade da mulher.
Tenho ouvido e lido muito sobre a mulher diante do seu corpo, e a forma como lida com seu prazer. Isso me tem levado a conversar com amigas, colocado no grupo de discussão do Ouzar e discutido com profissionais (psicólogos e ginecologistas). E tenho cada vez mais constatado que ainda hoje a mulher possui muitos conflitos com a sua sexualidade, com seu corpo, com o seu direito de sentir prazer. Herança de um histórico de “coisificação”, onde a mulher foi impedida de sentir prazer. Para esse histórico sempre indico o brilhante livro da Simone de Beauvoir – “O segundo sexo”. Nesse livro Beauvoir traça a trajetória da mulher, fazendo-nos entender porque em pleno século XXI muitas mulheres, de todas as idades, têm dificuldades com a sua sexualidade.
Algumas podem pensar que esse assunto não cabe no caso das mulheres com orientação sexual homo, mas estão erradas. Há muitas lésbicas que possuem dificuldade com seu próprio corpo e com relação ao corpo da sua mulher. Mas deixa eu expor o que estou pensando e aí vai fazer sentido eu abordar esse tema aqui no Ouzar.
Ora, quando criança, o menino é estimulado a mexer no seu “piu-piu”; sempre há um adulto que diz: “que bonitinho ele mexendo no piu-piu”. Isso quando o próprio adulto não brinca com o “piu-piu”. No caso da menina, nossa, aí a coisa complica. Se a menina for pega mexendo na “margarida”, “florzinha”, ou seja qual nome os adultos acabam dando, ela é reprimida. E nunca vi ou ouvi alguém dizer que ficou brincando com a “florzinha”. E isso nada tem a ver com pedofilia. Estou falando de brincadeiras de adultos saudáveis psiquicamente com bebês. Pedofilia é inaceitável e os praticantes devem ser denunciados.
Enfim, é sempre bom lembrar e combater esse crime absurdo praticado contra crianças e adolescentes.O fato que essa forma de encarar a genitália (acho esse termo uma coisa) da criança nos seus primeiros anos de vida, vai continuar para o resto da vida dela.
Na adolescência, a masturbação masculina é vista como algo normal e necessário. Segundo o senso comum, o homem precisa de sexo e é natural e saudável que o menino se masturbe. No caso da mulher, bem, aí ninguém comenta, afinal a mulher não tem necessidade de sexo como o homem, logo, masturbar-se é sinal que ela é uma promíscua. E a gente, nós mulheres, acabamos tomando a masturbação como um grandessíssimo pecado.
E eis que nós mulheres temos dois lados, duas formas de sermos vistas culturalmente: Eva – aquela que leva o homem ao pecado, a promíscua; e a Virgem Maria – a provedora, a assexuada.
Uma amiga dizia que muitas mulheres são “escarredeiras” de homem. Na época não entendia muito a profundidade da problemática da mulher com seu prazer que esse termo desvelava. É literalmente a mulher que serve ao homem para o prazer dele. Ela não existe na relação sexual. Atua como uma boneca inflável. Infelizmente muitas mulheres se submetem a isso.
Muitas mulheres relatam que nunca tiveram um orgasmo, e muitas se acham frigidas. Imaginem a quantidade de mulheres que passam a sua vida com essa idéia na cabeça? Claro que a frigidez existe, mas na maioria dos casos é de fundo psicológico. E aí temos que olhar para a forma como ela lida com seu próprio corpo. Ela se toca, se masturba, fala para a pessoa com quem está o que lhe dá ou não prazer?
O que tudo isso tem a ver com as mulheres lésbicas? Ora, mulheres antes de tudo. O fato de ter assumido a sua homossexualidade não significa que tenha superado completamente as diversas questões que envolvem a sua sexualidade.
Você é ativa? Por quê você não deixa a outra te tocar? Você é passiva? Por que você não se permite tocar a outra? Responder que é porque não gosta é minimizar a questão. Mas essa questão de ativa e passiva dá margem para outras reflexões que, claro, deve envolver a exposição de mulheres que são passivas e aquelas que são ativas. Aliás, aqui fica aberto um convite. E não precisa se identificar. Acho que tem muita mulher que gostaria de discutir essa questão.
Tenho conhecido muita gente. E já ouvi mulher lésbica que só faz amor no escuro, outras que jamais transariam num motel por causa dos espelhos, outras que não conseguem se masturbar, outras que nunca tiveram orgasmo etc.
Como falei em outro texto, quando sentimos tesão ficamos molhadas e temos vontade, necessidade de nos satisfazermos, de gozar. Seja nos masturbando, seja fazendo amor com outra pessoa. O fato é que quando o tesão surge, tem que ser saciado. É uma necessidade fisiológica que nós mulheres temos sim.
Mas todas nós já tivemos nossas neuras, nossas questões em algum momento. E por mais “resolvidas” que possamos parecer sexualmente, acabamos nos confrontando com situações que nos fazem retomar essas questões. Seja porque estamos com uma nova pessoa, seja porque nos vemos diante de uma nova situação.
O sexo é uma parte muito importante da nossa qualidade de vida, porque sentimos desejo sim, temos tesão sim, e é importante que a gente consiga superar nossos receios, os tabus sociais. É fundamental que descubramos nosso corpo para que ele nos dê prazer.
Drica Gentile
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