

Após o último capítulo de uma novela que não teve beijo, cheguei na casa da minha mãe e ela me disse: “Você viu que bonita a cena da mãe com o filho que é gay?” Sorri com um orgulho incontrolável pela fala e sorriso dessa mulher que eu, num tremendo medo de machucá-la, há quase 16 anos atrás, disse que jamais falaria pra ela que sou homossexual. Medo esse que se repete na história de vida de várias mulheres e homens que descobrem que gostam de pessoas do mesmo sexo. Medo de machucar e ser machucada(o); medo de ser rejeitada(o)...um medo quase incontrolável de ser colocada(o) como a(o) filha(o) que decepcionou a mãe, o pai, a família, os amigos.
Não, na novela não teve beijo, mas teve a cena que, “ouzo” dizer, que todas as mães de pessoas que têm relações homoafetivas, aceitando ou não, pararam para ver com toda a atenção. E isso é importante. É fundamental que sejamos representados como pessoas iguais a todas, com medos, receios, alegrias, tristezas, dúvidas etc., e não pelo estereótipo ressaltado pelos programas cômicos, pervertidos e doentes como muitas religiões e pessoas intolerantes nos colocam.
O diferente, o que difere, o que foge dos padrões de “normalidade” pré-estabelecidos pela sociedade sempre foram alvo de rejeição, de estranhamento e só a informação tem sido capaz de minimizar esse tal estranhamento. Claro que é utópico acreditar que um dia não haverá intolerância, preconceito, mas é possível sim diminuir a rejeição das pessoas com informação, esclarecimento.
Quando minha chegou pra mim dizendo que sabia que eu estava casada, no sentido literal da palavra, com um mulher, fiquei sem ação, sem saber o que dizer. Para mim ela disse apenas que eu era a sua filha, que me amava, que não era isso que tinha sonhado pra mim mas que o que importava era a minha felicidade. Mais tarde fiquei sabendo que ela interrogava amigos meus querendo saber como eu era tratada, se as pessoas me rejeitavam etc. Demorou simplesmente 10 anos para conversarmos abertamente sobre isso, ao ponto dela hoje ficar brava quando alguma mulher me machuca e vir tirar diretamente comigo dúvidas sobre o que é ser lésbica.
E hoje sou sua filha, como sempre fui e é assim que ela me apresenta como fez hoje para as enfermeiras e médico: “essa é minha filha caçula”. Fala de mim como fala de meus irmãos porque a orientação sexual nada tem a ver com o caráter da pessoa. O que importa é o que ela é como pessoa, como profissional, como filha, como irmã, como amiga. Nem para a pessoa que você ama é relevante dizer que se é lésbica, porque o que importa é o amor, o respeito, a vida a duas.
Hoje não mais preciso me fazer o que não sou; sou uma pessoa por inteiro, congruente comigo mesma. Minha namorada não é minha amiga, é minha namorada.
Levei 11 anos para isso e sei bem o quanto é difícil sair do tal armário e o alívio que dá quando você finalmente se liberta dos seus próprios preconceitos e sai de cabeça erguida pelas ruas, pelos lugares.
Ai me lembro do quanto é importante agir de forma natural, porque quanto mais a gente age como se fosse errado, como algo incomum, fora do normal, mais teremos reações de estranhamento por parte das pessoas.
Lembro algo que fazia até um tempo atrás e uma amiga minha de faculdade me chamou a atenção. Ela observou: “Dri, já reparou que sempre que vou com você em lugares que tem pessoas homo, você diz pra todos que sou hetero?” Pois é, olha só que doidera isso: gente essa é fulana, ela é hetero. Eu acabava evidenciando a sua orientação sexual e não é isso o que importa.
Temos que ressaltar sim, mas o caráter da pessoa, não a sua estatura, seus hábitos, seu peso, sua cor, sua orientação sexual. E o dia que conseguirmos fazer isso, ai sim estaremos exercendo o verdadeiro respeito para com outro.
Temos a liberdade de ser porque se não estamos prejudicando ninguém, temos o direito e o dever de sermos o que somos.
Drica Gentile
© Todos os direitos reservados ao OUZAR®