
O Ouzar foi convidado para participar do Seminário "Fortalecendo, Articulando e Informando Mulheres Lésbicas, Bissexuais e Transexuais da Região Sudeste" Fase I e II, promovido pelo Movimento D´Ellas e ABL - Articulação Brasileira de Lésbicas, que ocorreu no Rio de Janeiro, de 25 a 31 de Julho de 2006.
Antes de qualquer coisa, gostaria de abrir um parêntese para dizer que, na minha ida ao Rio para esse evento, tive a alegria de presenciar a união estável assinada por Hedi e Vivi, que se conheceram pelo grupo de discussão do Ouzar.A participação nesse Seminário me possibilitou vivenciar a militância do universo LBT, das mais variadas regiões do Brasil, bem como discutir os temas que norteiam tal universo.
Dos temas discutido, para mim, dois aspectos tiveram relevância: “mulher” e “visibilidade”.
No que se refere a “mulher”, Maitê Scheneider foi brilhante ao enfatizar que, sejamos lésbicas, bissexuais ou transexuais, todas somos mulheres; que a especificidade não deve ocultar o que somos em essência, ou seja, mulheres.
E é partindo de nossa essência que temos que lançar os olhos sobre a carga cultural que ainda carregamos. Herança de uma cultura machista, que “coisificou” a mulher, lhe roubou seus direitos, lhe jogou a uma esfera de inexistência própria; cabendo-lhe, como única função – servir ao homem.
E essa bagagem cultural, fardo por demais pesado para muitas, permanece assombrando nós mulheres em pleno século XXI.
Ainda hoje mulheres são “coisificadas”, violentadas, agredidas, subestimadas, desmerecidas pelo simples fato de ser mulher. E isso independente de classe social, de região, de país...
Quando as especificidades são colocadas em pauta, a mulher é mais desmerecida ainda. Sofre acentuado preconceito se for negra, se for homossexual. E ai se junta, como colocado no Seminário, o agravamento da discriminação quando se é mulher-negra-lésbica.
É partindo desse olhar sobre essa carga cultural, que se pode começar a entender a pouca visibilidade de nós lésbicas e, ai sim, começar a informar, articular e fortalecer cada uma de nós, de forma que cada vez mais mulheres lésbicas possam aumentar a sua qualidade de vida, por meio da congruência consigo mesma.
Não é uma questão de levantar bandeiras, temos para isso mulheres espetaculares, militantes, que vão a luta pelos nossos direitos de cidadãs. Direitos esses previstos na nossa Constituição e proclamados pelos “Direitos Humanos e, completamente desprezados e/ou ignorados pelos legisladores que se sucedem no Congresso, nas Câmaras e nas Assembléias.
Falo da congruência de amar sem vergonha; de não ter que apresentar a sua mulher como sendo uma amiga; de não ter mais que mentir. Falo do respeito. Porque não se pede uma aceitação, mas o respeito pelo nosso direito de amar.
E é ai que acredito no trabalho de base, de formiguinha, por meio da informação, da troca de experiências, de vivências, para que possamos, primeiro nos fortalecer enquanto mulheres e, ai sim, tornar as nossas especificidades não como algo a ser ressaltado como “crime”, “pecado”, mas como algo a se respeitado.
Aqui no site, no grupo de discussão do Ouzar e mesmo no Seminário, esse compartilhar vivências, sensibiliza para a união, resultando no fortalecimento do ser mulher.
Essa troca não apenas sensibiliza, mas também cria a possibilidade de conter egos exacerbados, discursos confusos e muitas vezes que desvelam o preconceito dentro do nosso próprio universo.
Claro que as especificidades não podem e não devem ser esquecidas, porque elas evidenciam a necessidade de um olhar diferencial principalmente com relação às políticas de saúde e de segurança pública. E nesse sentido surge a necessidade da capacitação dos profissionais da área da saúde para atender essas especificidades, por que só dessa forma, poderá se acolher tais especificidades, sem causar constrangimentos.
De certa forma é irônico ter que falar nisso, uma vez que cada ser humano é diferente do outro e, dessa forma, natural seria o atendimento personalizado a cada um.
Mas vivemos numa sociedade presa a dogmas, a pré-conceitos com pouca ou nenhuma flexibilidade. Só que essa sociedade é composta inclusive por cada uma de nós e, se temos tais especificidades, cabe a nós “Fortalecer, Articular e Informar”, para que no futuro, a carga seja, pelo menos, mais leve e que cada vez mais mulheres possam viver de forma congruente.
Grupos participantes do Seminário:
INOVA - Associação Brasileira de Famílias GLTTB; Grupo Arco-Íris; Grupo Dignidade; GLG - Grupo Lésbico de Goiás; AGLT - Associação Goiânia de Gays, Lésbicas e Transgêneros; Movimento D'Ellas; GDN - Grupo Diversidade de Niterói; Grupo Tucuxi; MGM - Movimento Gay de Minas; APOGLBT - Associação da Parada do Orgulho GLBT; Ouzar.
Drica Gentile
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