

Deveria ficar surpresa?
Não estou surpresa. Estou tentando assimilar tanta informação; tentando entender; e até evitando cair na tentação de ir para o lado acadêmico e fazer uma pesquisa.
Conversas aqui, ali, e cada vez mais me chegam confidências de abuso sexual na infância ou na adolescência e, geralmente, ocasionado dificuldades na qualidade da vida sexual das mulheres.
Mulheres que não conseguem ter relações sexuais; mulheres que não se deixam tocar; mulheres que colocam limites no tocar...etc.
Percebo que quanto mais idade a pessoa tinha quando foi abusada, maior o trauma. E as que foram abusadas quando pequenas, algumas nem noção de que foi abuso têm, mas, no entanto, algo parece ter acontecido, porque se mostram “travadas” sexualmente.
Será que, algumas, por terem sido abusadas sexualmente, acabam por se relacionar com mulheres? Não sei, e nem vou entrar no mérito da questão, porque pra mim o que importa é a pessoa estar feliz, independentemente de estar com uma pessoa do mesmo sexo ou não.
O problema está no fato do abuso sexual se transformar num fantasma na qualidade da vida sexual da mulher. Algumas mulheres podem desenvolver aversão ao ato sexual, outras têm aversão a serem tocadas, outras ressignificam e superam.
O abuso sexual não pode ser revertido, mas a companheira de quem sofreu o abuso tem papel fundamental para a ressignificação do ato, e da melhoria da qualidade de vida sexual da mesma.
A primeira questão é que, dificilmente, quem sofreu abuso sexual irá expor o fato, a não ser que adquira uma confiança muito grande em você.
Um aspecto muito presente nas mulheres que sofreram abuso sexual é a imagem da agressão; o relato é de que ainda sente o agressor, o cheiro, o corpo. As mulheres que tenho conversado, por conta dessa sensação, acabam tendo sérias dificuldades com sua atividade sexual. Algumas se tornam o que conhecemos no nosso universo como “ativas”, outras não conseguem nem ao menos transarem.
Nesse ponto, a parceira tem muito a colaborar. É preciso ter paciência, chegar com cuidado. Ajudar com muito tato a mulher a ressignificar o seu trauma. Deve-se tentar conquistar a sua confiança, ajudando-a a sentir prazer novamente com seu corpo e com o toque de outra pessoa.
Quando a sua parceira tem dificuldade na relação, cabe conversar, ser amiga entre outras coisas. Deixar de lado por algum tempo a sua própria satisfação para poder dar toda a atenção a descoberta, a redescoberta do prazer em sua parceira. O carinho é fundamental.
Faz parte do amor - o cuidar.
Drica Gentile
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