

Quando se termina um relacionamento, e você ainda ama a pessoa, você se desespera, chora, enraivece, deprime-se; vai literalmente até o fundo do poço. Quando está lá no fundo, feito cão sem dono, olha para si e começa, pouco a pouco, a escalar as paredes do poço até sair dele. No começo a claridade ofusca. Até se tenta cair novamente diante da conscientização que a vida continua. Algo que, por certo tempo, persiste. Aí se vai pensando, relembrando, e o que passou vai ficando no passado. De repente, um certo dia, você se vê diante do armário da sua vida. Abre uma gaveta vazia; olha em volta; lembranças, coisas; tudo uma enorme bagunça. Vai pegando cada pecinha, olhando, dobrando com cuidado. Vez ou outra desdobra só para relembrar. Chora, talvez sorri...mas com certeza suspira. Vai repetindo esse ritual por algum tempo até que a gaveta esteja cheia e o espaço em sua volta, sem bagunça. Olha para aquela gaveta arrumadinha; surge a tentação de rever cada peça dessa história; pouco a pouco, cada peça é retira, observada, sentida. O choro é inevitável.mas dessa vez as peças, após serem revistas, são recolocadas na gaveta. Quando ela está em ordem novamente...um longo suspiro se faz...inevitável olhar em direção do telefone. Um longo e forte aperto se faz sentir no peito. Respira-se fundo, fechando a gaveta que parece, teimosamente emperrar. Aí se mal-diz; surge uma leve fúria dominada por mais um longo suspiro e a gaveta é deixada assim, meio que entreaberta, por um tempo. E o tempo passa até se perceber que a gaveta não foi fechada. Num absurdo momento de renascimento da dor; a gaveta é reaberta, mas dessa vez o olhar passa pelo todo e não pelos detalhes. Um choro profundo e cruel se apossa de você. Uma mão em cada maçaneta da gaveta fecha-a quase que por completo. Leve espaço se faz. Toma-se a postura digna de uma cidadã. Respira-se fundo; apaga a luz, desce a escada e sai. Entre mesas de bares, corpos que dançam, a vida vai se renovando. Mas há ainda um vão entre a gaveta e o armário. Um dia você chega meio fora de si, da cerveja, do cigarro e vê esse vão. Como por encanto, a gaveta se reabre. Mas já não é preciso rever cada peça, porque o conjunto, agora você sabe, está no passado. Você caminha até a gaveta, volta a empurrá-la sabendo que o vão ainda irá durar por um tempo. Você sai novamente; dessa vez inteira e percorre de forma diferente as mesas dos bares, os corpos que dançam.
Que sorte a sua se encontrar alguém que compreenda esse vão e não queira competir com o que está guardado nessa gaveta.
Drica Gentile
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